Anna Lú

Bio

Mais que uma cantora independente, uma mulher independente. Mais que dona de bela voz, uma compositora, autora das próprias canções e decisões artísticas; experiente, apesar da pouca idade, porém com frescor na forma como percebe e faz a crônica – superfeminina – de seu tempo. Vestidos que não servem mais, guardados para sabe se lá quando; romances que não sobrevivem à primeira viagem, dores de amor que ficam para trás diante de pequenos prazeres cotidianos… Tudo destilado no registro de mezzo soprano, com invejável desenvoltura nos graves e zero de inclinação a maneirismos exibicionistas.

Na adolescência, enquanto as amigas suspiravam por Bon Jovi, Anna Lú curtia Frank Sinatra e big bands. Desde os 16 anos, a vocação musical familiar se mostrou inescapável, e ela se jogou no palco numa viagem sem volta. Seus pais tinham se conhecido na TV Tupi. A mãe, Vera Lúcia, foi a primeira vencedora do concurso de calouros de Silvio Santos, e trabalhou por muitos anos no “Qual é a música?” antes de trocar os holofotes da TV pelo brilho na noite paulistana… “Tinha mais glamour, figurinos… Não havia Midi: as bandas de baile eram orquestras”, conta Anna, ao lembrar o fascínio que o ofício da mãe exercia sobre ela desde menina.

“Respiro música desde que nasci. Nunca fiz outra coisa na vida. Prestei vestibular para educação física, mas frequentei a faculdade por muito pouco tempo. Não dava para conciliar com o trabalho.” Ainda adolescente, emendou gigs em diversas formações conceituadas de São Paulo, animando casamentos, formaturas, bar mitzvahs e festas variadas. Até que, em 2002, quando estava gravando um jingle, surgiu o convite para participar do programa Fama, da TV Globo. “Foi muito bacana como experiência de vida e de afirmação. Eu tinha 19 anos e pude aprender bastante em todos os aspectos.” Anna ficou morando no Rio de Janeiro, fez shows cantando bossa nova no Vinícius Piano Bar, em Ipanema, e, dois anos depois, voltou à sua cidade.

Criada na Vila Monte Alegre (distrito da Saúde), baladeira convicta, ela abraçou novamente São Paulo em múltiplos trabalhos. Entre experiências em rádio e na TV, foi emendando mais e mais atuações em bandas de festa com repertórios dos mais variados. O sonho do trabalho autoral foi adiado por temporadas no exterior: uma nos EUA e outra na Tailândia, onde se apresentava em um hotel cinco estrelas, acompanhada por um pianista brasileiro. “Era ‘Garota de Ipanema’ umas oito vezes por dia… Mas eu fui aumentando o repertório deles de música brasileira. Do encontro fundamental com uma amiga, também cantora e compositora, Renata Fausti, é que veio a maturação do trabalho autoral de Anna Lú. As duas assinam oito das nove composições incluídas em Dei de Cara com a Vida. Todas feitas da maneira mais natural possível, a partir de longas conversas, noitadas de risadas, confissões e uma convivência que evoca o lado mais profundo da palavra parceria. O estilo das letras é simples e direto – “poesia acessível”, como ela define -, quase sempre se referindo a situações reais, vividas por Anna, ou por Renata, ou ainda por amigas. “São todas histórias verdadeiras. A maioria, não vou mentir, aconteceu comigo”, revela Anna Lú. Algumas das canções têm sua carga de dor, mas sempre com alguma redenção, reflexo do humor e do bom astral da cantora e compositora. “É um pouco como um manual para a mulher não sofrer”, compara.

O disco foi gravado no estúdio Na Cena, no Campo Belo, São Paulo, com o equipamento de ponta que já atraiu para lá nomes internacionais como Herbie Hancock, Ben Harper e Kanye West. Na produção e direção musical, porém, prevaleceram também relações reais e intimidade: os responsáveis são os paranaenses Jefferson Pina e Maycon Ananias. O primeiro, que também toca as guitarras e violões das nove faixas, é experiente produtor com visão de vários gêneros musicais e melhor amigo da cantora. Maycon, parceiro e tecladista de Mariah Gadú, é um nome em franca ascensão no mercado brasileiro (e internacional, depois que virou parceiro de Jesse Harris, autor do hit “Don’t Know Why”).

Os dois trabalharam em cima das concepções sonoras de Anna Lú com referências de timbre extraídas de discos de Joss Stone, Norah Jones (solo ou com o Peter Malick Group)e outras cantoras que abraçam o pop com elegância. O charme vintage da tecladaria – piano Fender Rhodes, Mellotron, Hammond – ajudou a enriquecer composições densas como “Adeus” e “Eu Tava No Portão”, aproximando-se de uma ambiência soul jazz que encanta há décadas. Thiago Rabello é o baterista no disco todo; Serginho Carvalho e Gastão Villeroy se alternam ao contrabaixo. Marcelinho Ferraz assina a engenharia de gravação, André Motta fez a mixagem, no Atmosphera Studio e a masterização foi realizada nos Sterling Sound Studios, em Nova York.

Depois de muito conquistar, brilhando em projetos respeitados no mercado como a banda Evolution e o Jazz Monster (de Guga Stroeter), Anna Lú lança-se com visão de mundo e concepção musical próprias. A nova cantora que vai aos palcos defender este trabalho é a mulher forte e sensível que está nas canções. Aquela que faz balisa melhor que o namorado e que não precisa de ninguém para consertar o chuveiro, mas não desiste de amar e administrar as fraquezas do sexo oposto. Todas elas ficam superbem na foto com Instagram das oito composições de Anna Lú com Renata Fausti incluídas em Dei de Cara com a Vida. E a nona e última faixa, o power pop “Conto de Fadas às Avessas”, composto pelo músico (e chef) Ivan Achcar, chega como sobremesa perfeita para confirmar: temos uma bela fera à solta.

Pedro Só